Daqui, do meu cantinho, já não vejo quase nada. Vejo umas árvores que terão sido de outros mundos tentarem mostrar-me a primavera, pintada de amarelo. As suas flores são amarelas, talvez simbolizem uma luz amarela para me reterem em casa. Mas se o amarelo também é uma das grandes cores da primavera, a minha amiga Primavera continua arredada do meu universo de 2020 que devia ser multicolorido. Assim, tenho nêsperas amarelinhas nas traseiras e flores amarelas de árvores de outros mundos na avenida, em frente.
Preciso de mais cores
Há também um, dois, três melros que dão um pouco de preto ao meu colorido, além da beleza dos seus cânticos. De resto, falta-me tudo o mais que enfeita o mundo. Falta-me o colorido de outras flores, falta-me o esvoaçar das andorinhas, falta-me o o escorrilhar das águas nos riachos, faltam-me as conversas que os gaios costumam ter à minha passagem, bem como as rolas e os pombos. Não vejo estes nossos companheiros de caminhada na sua azáfama de construção das suas casas, ou de alimentar os seus filhotes. Sinto-me ficar com uma vida cheia de cegueira.
Andorinhas, uma das muitas belezas da primavera
Mas também sinto que faço parte de uma espécie super-preparada para aniquilar outras vidas. As andorinhas são lindas e são espezinhadas pela inteligência que achamos ser muita a delimitar a nossa superioridade sobre os outros animais. Não queremos os ninhos das andorinhas junto aos telhados das nossas casas porque nos enchem as casas de piolhos. Se essa inteligência, tão avançada e tão nossa, existisse realmente, não destruiríamos as casas das andorinhas e faríamos tudo para que elas não nos deixassem sós durante os verões, esperando, com alegria, todas as primaveras a sua chegada.
Também não choraríamos os pequenos frutos e cereais que os estorninhos, as rolas bravas, os pombos bravos e tantos outros animais nos procuram para refazerem as suas vidas e levarem a cabo a sua continuidade através da procriação. Roubam-nos, dizem, mas se fossemos inteligentes, acabávamos por fazer algumas partilhas voluntárias com eles, não lhe chamaríamos roubo.
Estorninhos, alguns migram
Daqui, do meu cantinho, sinto que o nosso mundo se vai desfazendo, mais lenta ou mais apressadamente, por causa da nossa imaginária superioridade vencedora sobre os nossos companheiros de caminhada. Acho que seria muito melhor para demonstrarmos essa pretensa superioridade que não passa de um sonho nosso, revermos tudo que nos move contra animais que, afinal, velam pela nossa vida.
Eles gritam todos os dias para o vosso amigo Ventor: «o Universo é de todos e todos temos de caber nele».



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