sábado, 30 de maio de 2020

Bacalhau com natas

 Luiz Franqueira 30.05.20

O meu amigo Checa que gosta de apresentar belos e saborosos pratos, não vai muito tempo, apresentou alguns pratos para várias pessoas algumas das quais de biquinho complicado.

Houve aqueles que comeram um belo cozido à portuguesa, feito num fogão a lenha que estava uma maravilha. Mas nem toda a gente gosta de cozido à portuguesa. Como é que é possível haver gente que não gosta de cozido à portuguesa?! Pois bem há mesmo! Mas também há os que têm preferência por outros pratos, perante um cozido à portuguesa. "Meus senhores, pode não ser do contentamento de todos um cozido há portuguesa mas se alguém preferir, também temos bacalhau com natas".

Alguém respondeu: "eu gosto de cozido à portuguesa mas, prefiro a alternativa. Para mim pode ser bacalhau com natas". E  o Checa, lampreiramente foi buscar o bacalhau com natas. Ei-lo, um belíssimo prato de bacalhau com natas para alternativa ao cozido.


Bacalhau com natas - uma maravilha da culinária portuguesa

Para aqueles que desconhecem a palavra "Checa", recordo aqui que tinha para nós e terá ainda hoje o significado, neste caso, de o "eterno novato", o "sempre jovem", o "último a chegar", o .... sabem como é! Se não sabem têm de perguntar aos vizinhos. Há sempre quem saiba.

Tentem apreciar o novo prato de bacalhau com natas e verão como é um belo prato.

sexta-feira, 29 de maio de 2020

Desalento

 Luiz Franqueira 29.05.20

Tenho saído à rua, para tratar da vida, quando necessário. Depois de meses confinado em casa e 3 ou 4 saídas ligeiras e urgentes à Farmácia, comer para o gato, ultimamente aproveitei a leva e fiz as saídas necessárias com a tal caminhada de kms na terça feira passada. Escusado será dizer que fiquei escanzelado! Caminhar com peito às balas feito e, por fim, andar de rastos aqui em casa a montar uma cadeira para a varanda, fiquei mesmo arrumado.

Mas, ontem fomos ao Hospital de Santa Maria, à Farmácia, buscar um medicamento que tem de ser levantado sempre lá. Costuma fechar às 19 mas agora fecha às 16. Viemos sem ele. Mas isso é o menos. Ver o Hospital de Santa Maria como o vi, só marcações de várias ordens, fitas coloridas, chãos marcados, uma espécie de hospital de campanha, em frente, meia dúzia de ambulâncias e alguns bombeiros, uma ou outra pessoa sentada onde podia. Algo me gritava: "tem sido o terror, Ventor"!

É tão bom continuarmos a ver as flores nos prados verdejantes

Aquele hospital onde eu já descrevi nos "corredores do desespero", mostrou-me ontem um semblante do terror. Um terror real que me gritou: «nem sabemos o que nos pode esperar, Ventor. A vós, e a mim, o próprio terror! Ninguém sabe como isto vai acabar, Ventor e até eu, o terror, me sinto aterrorizado"!

Fui caminhando de carro e, mesmo de carro notava como é belo viver desconfinado. Quando cheguei à minha rua arrumei o carro e fomos à Farmácia a pé. Verifiquei os cafés abertos e, claro, como previsível, ninguém mascarado. Comer, beber as velhas cervejolas e elas sabem tão bem em dias de calor! Mas, por aí, o terror caminhava escondido por entre as mesas, acenando-me e mostrando-me a parte pior do desconfinamento. O pensamento relaxado das pessoas que não sabem ler nem sabem ouvir ou nem querem! Para eles o terror acabou! Uns copos de cerveja fresquinha repõem tudo no seu lugar e enquanto ela escorre pela garganta abaixo a vida vai continuando no seu melhor.

Mas não é bem assim! Daqui do meu cantinho eu aconselho todos a terem medo e a senti-lo bem juntinho dos batimentos cardíacos. Não se fiem nas comodidades da vida e não se esqueçam que até já o medo tem medo. É fácil dizer que o pior já passou mas não passou! Se nos distrairmos, se não estivermos atentos, se abusarmos, não voltaremos a cantar a tal caçãozinha: «tudo está no seu lugá, graças a Deus» ....

Eu também sei verificar as amostragens e ponderar as estatísticas e costumo dizer como o outro: "raras vezes me engano" mas, desta vez, peço a Deus que me deixe enganar ou estamos tramados. Depois não venham dizer que acontece mais nas classes mais desfavorecidas enquanto há muita gente, por aí, a pensar que só acontece aos outros.

domingo, 24 de maio de 2020

Mês de Maio

 Luiz Franqueira 24.05.20

Tinha os meus 14 anos, num dia de Maio de 1960 que me deu na gana afastar-me de tudo. Fui levar as vacas à Chãe do Boi, bem cedo e num dos meus dias de sol preferido, tal como o de ontem e de hoje por aqui, deu-me para deixar as vacas e não voltar para trás mas subir serra acima. A ideia era ir até à fonte da Naia e fui, bebi água, muita água. Era no tempo que a fonte da Naia estava linda com a água corrente disparada do chão, num calorento dia de primavera.

A Fonte da Naia era assim em 2006, mas no mês de Agosto

Comecei a olhar o Alto da Derrilheira, aquele belo alto que todos conhecemos e até me parecia inclinado a espreitar-me, então cheio de urzes altas quase até ao cimo. Pensei para comigo, "vou fazer-te uma visita"! Sem dar por mim já estava a subir o Muranho, bebi água na sua fonte e continuei a subir. Num ápice estava lá em cima a espreitar Adrão de cima para baixo. Tudo trabalhava! Uns espalhavam os estercos das vacas, outros lavravam e outros transportavam os estercos nos carros de bois, veiga abaixo e faziam uma chiadeira enorme. Muitas lavouras já tinham os montículos do esterco para espalhar e, vistos lá de cima, faziam lembrar aqueles montículos de terra das toupeiras. 

Foto de Adrão, tirada em 2014, desde o Alto da Derrilheira

Eu olhava e ouvia e processava no meu cérebro imagens que nunca mais esqueci. Ao mesmo tempo olhava a serra Amarela e recordava-me que anos atrás, com cerca de 5 anos, eu e o João da Piedade, queríamos ir para Lisboa. Lisboa ficava, para nós, mesmo por trás da serra Amarela e vivia lá o primo do João, o Lage de Soajo, o tal grande cantador dos nossos serões de Adrão, feiras e romarias. Nós iríamos procura-lo, estaríamos lá com ele um dia ou dois e depois regressaríamos a Adrão.

Encontramos a tia Pedreira com o seu alguidar cheio de sardinhas ou carapaus, ou dos dois, à cabeça e quando lhe disse que íamos para Lisboa, queria mandar o alguidar para o chão e eu, com a minha calma costumeira, explicava-lhe que ela não seria capaz de o pegar e nós não tínhamos força para a ajudar. Vamos a Lisboa mas voltamos. Bem, vou seguir e avisar as vossas mães elas ainda vos apanharão por Soajo. Mas tivemos sorte à entrada de Soajo. Um homem numa lavoura de centeio fez-nos uma cara tão feia e a brincar com uma palha meteu-nos tanto medo que tivemos de voltar para trás. Claro que, ao chegar a casa, foi soba garantida!

Foto do Sr. da Paz, em Adrão, também tirada do Alto da Derrilheira, em 2014

Mas nesse dia, no Alto da Derrilheira, eu já sabia que Lisboa ficava muito para trás de muitas serras amarelas e o plano para alcançar Lisboa já estava forjado na minha cabeça, embora só se realizasse no dia 3 de Março do ano seguinte. Hoje tento repassar as imagens desse dia e sei que vou morrer antes, muito antes, de alguém voltar ao Alto da Derrilheira e ouvir a chiadeira dos carros de bois pela nossa Veiga abaixo.

quarta-feira, 20 de maio de 2020

Hoje fui ver o sol

 Luiz Franqueira 20.05.20

És lindo, piloto

Hoje fui fazer uma pequena caminhada e aproveitei para visitar os meus amigos.

Saí de casa e desloquei-me a Mafra, fazer uma visita ao meu amigo Checa. Já estava a sentir necessidade de visitar uns amigos e conhecer outros. Fui visitar o meu amigo Piloto, pois já há 3 meses que não nos víamos nem nos falávamos ou ladrávamos. Com o dono ainda temos o telemóvel mas com o Piloto é necessário um toque de patas.

Quando ele avistou o carro, a tia Gisela e o seu amigo Ventor, começou logo numa chinfradeira tipo, aí, ai, ai, ... que aqueles hoje perderam a cabeça e lembraram-se que eu ainda existia.

 Depois fui fazer a minha pequena caminhada entre as flores e recebi olás especiais das macieiras. «Estávamos a ver que este ano não vinhas ver as nossas flores, Ventor. Mas nós tínhamos esperança e fomos guardando para ti, flores e botãozinhos que tu tanto gostas e claro as futuras maçãs que, como todos os anos virás fotografar e comer. Nós sabemos e estamos contigo quando dizes que o mundo é belo, Ventor.

São belas flores de maças reinetas, que também já as havia, pequeninas e espigadinhas

Mas também fui conhecer novos amigos! Estes belos penudinhos que o meu amigo Checa me foi mostrar com uma cana a sinalizar a videira para quando sulfatar não prejudicar as suas vidas. Quando nos afastamos ainda ouvi um dizer para os irmãos: «quando a mãe vier temos de lhe dizer que esteve cá o Ventor e já ficamos a conhece-lo.

Botões de flores de macieira

Os penudinhos

Noutros tempos, nunca pensamos que 52 anos depois (mais de meio século) nos encontraríamos noutras espécies de guerras. Só nos faltava a deste badameco a que chamaram, SARS-COV-2

E, como sempre o meu amigo Checa na sua luta diária com o seu "asa" mecânico na luta pela pinga e tudo o mais.

domingo, 17 de maio de 2020

Transfiguração

 Luiz Franqueira 17.05.20

Representa a transfiguração de Jesus perante alguns dos seus apóstolos. Essa transfiguração ter-se-à dado no cimo de um monte pelos sítios da Galileia, algures. Digo algures porque ninguém sabe ao certo em que monte. Poderá ter sido no monte Tabor, a cerca de 575 metros do nível médio do mar e, a alguns 17 km a oeste do mar da Galileia. Ou outros, entre eles o monte Hérmon, bem mais longe e bem mais alto (2.814 metros de altitude).
Esse monte tem sido calculado por especialistas na matéria (não vou dizer geógrafos) pela vida fora após a morte de Cristo. Não foi aqui, foi ali, deve ter sido acolá porque foi assim ... etç. Terão algum significado mas poderá ser adulterado por imaginações diferentes.
Mas o que interessa é que foi! Não se sabe onde, mas foi! Mas foi porquê? Porque os evangelhos de Lucas, Mateus, Marcos e uma epístola de Pedro referem o sucedido.
E eu vou dizer-vos porque acredito que foi. Porque esses evangelhos nos contam a história mas, os que os escreveram esqueceram-se de nos dizer onde. Provavelmente não tinham a mentalidade dos que têm descrito a serra de Soajo que, armados em sabichões de Geografia, cada um apostou na sua posta (não da cachena) e muitas vezes errada.
Jesus pegou neles, levou-os à montanha e provavelmente nunca tinham saído dos arredores do mar da Galileia, estiveram-se nas tintas para o monte.
Mas é aqui que entra a Pedrada
!

Alto da Pedrada - na serra de Soajo

Falo por mim, talvez para outros também seja assim, ou não! Quando eu saía ou ainda saio de Adrão, rumo à Pedrada (e volto a frisar, o pico mais alto da serra de Soajo), eu costumo dizer que vou sempre a olhar para trás. Para trás de mim ficava a minha gente, o meu berço a alegria do sítio que me trouxe ao mundo e belas paisagens. Para a frente, sempre a subir, eu encontro-me cada vez mais perto do céu. Atravesso o planalto da Naia, subo ao Muranho, continuo a subir e, depois, continuo rumo à Corga da Vagem mas sempre com os olhos na Pedrada.
À medida que continuo a subir, eu sinto que estou a transfigurar-me e acredito que o pico mais alto é realmente o local que nos coloca sempre, mais perto de Deus. É assim que me sinto na Pedrada. Nenhum outro local, por mais alto que seja, me transporta para tão perto de Deus.
Eu penso que Ele me diz: «estás na tua terra Ventor, subiste à tua serra e colocas o teu espírito o mais possível, junto de mim». Isto é, para mim, o significado real da Pedrada. Transfiguro-me, subindo e sinto-me pertinho do céu.

quarta-feira, 6 de maio de 2020

Encotrei-me com a Primavera

 Luiz Franqueira 06.05.20

Todo o ser vivo, animal ou vegetal é filho do sol

Hoje foi um dia diferente. Só a Primavera falou.

Hoje encontrei-me com a Primavera. Ela apareceu-me um pouco envergonhada, triste, muito infeliz. Olhou-me e disse: "sabes, Ventor, julguei que nunca mais te via! Eu sempre achei que ninguém como tu sabe apreciar as flores selvagens. Ninguém como tu sabe apreciar os animais selvagens. Ninguém como tu sabe apreciar estas belas pinceladas que eu ponho aqui e ali. Deus pega-me na mão, faz um pequeno gesto com a sua e eu vejo sair pelos meus olhos, todas estas belezas como tu vês.

Um recanto de beleza

Vi-te falares com os melros, com os demais passarinhos e com os patos reais e eles sabem apreciar o modo como comunicas com eles. Eles prestam-te atenção porque sabem que não os enganas. Só vejo eles afastarem-se quando puxas a máquina e a apontas em sua direcção. Eles assustam-se porque nunca deixam de pensar se tu desvias a tua mente dos mandamentos que Deus fez mas que os homens não apreciam: «respeitar os outros animais».

Nem imaginas como eu gosto de te ver acariciar as pétalas das flores, com tanto carinho, com tanto respeito. É o que vejo  nos teus gestos. «Vejo que tu amas a vida, a tua e a de todos que te rodeiam. Tu amas a vida de todos os seres vivos. Por isso, Ventor, nós também te queremos muito. Estamos sempre esperando a tua chegada para ver-te caminhar juntamente connosco.

Esperamos sempre por ti".

Claro que eu também! Primeiro tenho de afastar o covid-19 e, depois, com toda a calma do mundo caminhar no seio de todos - a Natureza.

terça-feira, 5 de maio de 2020

O Batismo do meu rio

 Luiz Franqueira 05.05.20

Voltando ao cartão de identidade do rio de Adrão.

O rio Adrão nasce aqui, nos Sorreiros. Estas são as primeiras gotas, num mês de Agosto

Como devem calcular, eu estou-me nas tintas para o nome que queiram dar ao rio de Adrão. O rio de Adrão tem mais nomes que qualquer outra coisa que me recorde momentaneamente.

Quando eu era pequeno, para nós, o rio Adrão, começava no rio da Fraga, descia pelo rio da Leira, passava como rio da Ponte, rio de Outeiros, rio da Veiga, rio do Curral das Cabras e continua até abraçar o rio Lima, com outros nomes como rio da Trapela, rio da Laceira e outros troços que vocês conhecem melhor que eu.

Aqui é o troço do rio a que chamamos, rio da Fraga

Os nomes dos troços do rio serviam e servem para identificar as localidades e referenciar onde alguém se encontrava (encontra), relativamente ao rio, no seu todo. Uns tempos atrás, li notícias em órgãos escritos, ouvi na rádio e televisão, que um desportista (canoagem, creio), tinha morrido no rio Adrão e eu, tal como noutros tempos, pensei: "rio Adrão, mas onde"? E, como gosto de identificar as coisas o melhor possível, só parei quando soube onde. Já não me recordo mas terá sido lá para baixo, para os lados da Trapela. Não estava em causa o rio, mas o troço do rio.

Para além do rio e do troço do rio, ainda tínhamos os poços do rio. "viste o meu Luiz, João"? O seu Luiz ficou no rio X, no poço Y (não em lagoas). Disse-me que só saía de lá quando apanhasse uma truta quase do tamanho de um salmão". Significava isso que podia esperar e quantas vezes de chibata na mão!

O rio Vez nasce na serra de Soajo, num local chamado Seida e reduzindo mais a escala, em Lamas do Vez. Sai dali a cantar até encontrar o rio Lima e, dali, partem os dois abraçados até ao mar.

O rio de Cabreiro, cujas águas descem da fonte das Forcadas e, chegando ao fundo, viram à esquerda e depois descem, correndo pela mata do rio Ramiscal, segue o seu rumo até ao Vez. Mesmo juntinho à fonte das Forcadas, já vi nascer as águas da Corga da Vagem, em pleno mês de Agosto. Tinha chovido e saíam do fundo do poulo em grande alvoroço, rumo a Bordença e, para mim, rio de Bordença, até morrer. Mais algum tempo e "ah, tá"! (Já está)!

Aqui é o rio da Ponte. E todos os demais nomes de troços que se seguem rio abaixo

No meu tempo, só ouvi chamar ao nosso rio, o rio Adrão uma vez e foi em Paradela. Diziam-me que Adrão tinha muita água e era uma terra rica. Já nessa altura, para mim, era apenas uma criança, riqueza era ter saúde e trabalhar.

Não serei eu a trocar o nome ao rio, nem a desfazer-lhe os troços cujos nomes a minha gente lhe dava e ainda dá. Quando andava pela Assureira, quando o rio lá no fundo ia todo branquinho, quase só uma cachoeira, dizíamos: "olha como vai grande o rio da Trapela"!

Eu em Soajo nunca ouvi falar do rio Adrão ou do rio Soajo. Ouço falar apenas do Poço Negro. Vamos ao Poço Negro. Ou outro, mas normalmente é o negro. Acho bem que fiquem com os Poços Negros ou brancos. É em Adrão que se ouve cantar o rio.

segunda-feira, 4 de maio de 2020

O que não vejo


Daqui, do meu cantinho, já não vejo quase nada. Vejo umas árvores que terão sido de outros mundos tentarem mostrar-me a primavera, pintada de amarelo. As suas flores são amarelas, talvez simbolizem uma luz amarela para me reterem em casa. Mas se o amarelo também é uma das grandes cores da primavera, a minha amiga Primavera continua arredada do meu universo de 2020 que devia ser multicolorido. Assim, tenho nêsperas amarelinhas nas traseiras e flores amarelas de árvores de outros mundos na avenida, em frente.

Preciso de mais cores

Há também um, dois, três melros que dão um pouco de preto ao meu colorido, além da beleza dos seus cânticos. De resto, falta-me tudo o mais que enfeita o mundo. Falta-me o colorido de outras flores, falta-me o esvoaçar das andorinhas, falta-me o o escorrilhar das águas nos riachos, faltam-me as conversas que os gaios costumam ter à minha passagem, bem como as rolas e os pombos. Não vejo estes nossos companheiros de caminhada na sua azáfama de construção das suas casas, ou de alimentar os seus filhotes. Sinto-me ficar com uma vida cheia de cegueira.

Andorinhas, uma das muitas belezas da primavera

Mas também sinto que faço parte de uma espécie super-preparada para aniquilar outras vidas. As andorinhas são lindas e são espezinhadas pela inteligência que achamos ser muita a delimitar a nossa superioridade sobre os outros animais. Não queremos os ninhos das andorinhas junto aos telhados das nossas casas porque nos enchem as casas de piolhos. Se essa inteligência, tão avançada e tão nossa, existisse realmente, não destruiríamos as casas das andorinhas e faríamos tudo para que elas não nos deixassem sós durante os verões, esperando, com alegria, todas as primaveras a sua chegada.

Também não choraríamos os pequenos frutos e cereais que os estorninhos, as rolas bravas, os pombos bravos e tantos outros animais nos procuram para refazerem as suas vidas e levarem a cabo a sua continuidade através da procriação. Roubam-nos, dizem, mas se fossemos inteligentes, acabávamos por fazer algumas partilhas voluntárias com eles, não lhe chamaríamos roubo.

Estorninhos, alguns migram

Daqui, do meu cantinho, sinto que o nosso mundo se vai desfazendo, mais lenta ou mais apressadamente, por causa da nossa imaginária superioridade vencedora sobre os nossos companheiros de caminhada. Acho que seria muito melhor para demonstrarmos essa pretensa superioridade que não passa de um sonho nosso, revermos tudo que nos move contra animais que, afinal, velam pela nossa vida.

Eles gritam todos os dias para o vosso amigo Ventor: «o Universo é de todos e todos temos de caber nele».

domingo, 3 de maio de 2020

Dia da mãe

  Luiz Franqueira 03.05.20

Hoje é o dia da mãe, dizem!

São imposições levadas a cabo por aquela máquina consumista nascida lá para os lados do tio SAM. De lá saem todas as engrenagens que nos levem a consumir mais e, preferencialmente, bem diversificado pelo ano fora. Essa a razão porque tiraram o dia da mãe do dia de Nossa Senhora da Conceição para o primeiro domingo de Maio. Claro que eu sempre fui um desalinhado e, por essa razão, também desalinhei com o dia da mãe. Para mim, o dia de Nossa Senhora da Conceição, é o dia certo.

Mas toda a gente é livre de optar por tudo aquilo que lhe dá jeito, mais não seja, ir atrás dos outros. Por acaso, para mim, isto até acaba por ser uma imposição. Mas como não é uma imposição obrigatória, fico sossegado no meu cantinho e não refilo. Para mim, dia da mãe, são todos, mesmo com ela do outro lado, no além, para além, suponho, da luz.

Quando era miúdo, a minha mãe, devia ser a mãe que mais batia, em Adrão. Levei muitas. Porque não estava de acordo, porque fazia asneiras, porque defendia os meus irmãos e até porque dizia: "fui eu, sem ser"! Mas nunca deixei de gostar dela.  Quantas vezes apanhava tareias só por querer ir com ela! 

Mas a minha mãe, para mim, era um fenómeno! Doentinha, com essa malvada Alzheimer, caminhava na ponte de Adrão em minha direcção, sorrindo. Era o dia do funeral de meu cunhado e ela tinha estado com várias pessoa, concluindo que se tratava de uma festa. Ao aproximar-se, diz-me: "a festa está bonita, não está, meu senhor"? Você não me conhece? E ela fixa-me e responde-me: "ah, safado, que eu a ti, conhecia-te, nem que fosse nas profundezas do inferno"! E abraçou-se a mim.

Felicidade para todas as mães e que se protejam, ao máximo, do malvado vírus.

As Janelas por onde espreito

 Nasci no Lugar de Adrão   Na serra de Soajo As Caminhadas por aí   Estive em Moçambique   A Arrelia do Quico   O meu Pilantra s     As bele...