Luiz Franqueira 24.05.20
Tinha os meus 14 anos, num dia de Maio de 1960 que me deu na gana afastar-me de tudo. Fui levar as vacas à Chãe do Boi, bem cedo e num dos meus dias de sol preferido, tal como o de ontem e de hoje por aqui, deu-me para deixar as vacas e não voltar para trás mas subir serra acima. A ideia era ir até à fonte da Naia e fui, bebi água, muita água. Era no tempo que a fonte da Naia estava linda com a água corrente disparada do chão, num calorento dia de primavera.
A Fonte da Naia era assim em 2006, mas no mês de Agosto
Comecei a olhar o Alto da Derrilheira, aquele belo alto que todos conhecemos e até me parecia inclinado a espreitar-me, então cheio de urzes altas quase até ao cimo. Pensei para comigo, "vou fazer-te uma visita"! Sem dar por mim já estava a subir o Muranho, bebi água na sua fonte e continuei a subir. Num ápice estava lá em cima a espreitar Adrão de cima para baixo. Tudo trabalhava! Uns espalhavam os estercos das vacas, outros lavravam e outros transportavam os estercos nos carros de bois, veiga abaixo e faziam uma chiadeira enorme. Muitas lavouras já tinham os montículos do esterco para espalhar e, vistos lá de cima, faziam lembrar aqueles montículos de terra das toupeiras.
Foto de Adrão, tirada em 2014, desde o Alto da Derrilheira
Eu olhava e ouvia e processava no meu cérebro imagens que nunca mais esqueci. Ao mesmo tempo olhava a serra Amarela e recordava-me que anos atrás, com cerca de 5 anos, eu e o João da Piedade, queríamos ir para Lisboa. Lisboa ficava, para nós, mesmo por trás da serra Amarela e vivia lá o primo do João, o Lage de Soajo, o tal grande cantador dos nossos serões de Adrão, feiras e romarias. Nós iríamos procura-lo, estaríamos lá com ele um dia ou dois e depois regressaríamos a Adrão.
Encontramos a tia Pedreira com o seu alguidar cheio de sardinhas ou carapaus, ou dos dois, à cabeça e quando lhe disse que íamos para Lisboa, queria mandar o alguidar para o chão e eu, com a minha calma costumeira, explicava-lhe que ela não seria capaz de o pegar e nós não tínhamos força para a ajudar. Vamos a Lisboa mas voltamos. Bem, vou seguir e avisar as vossas mães elas ainda vos apanharão por Soajo. Mas tivemos sorte à entrada de Soajo. Um homem numa lavoura de centeio fez-nos uma cara tão feia e a brincar com uma palha meteu-nos tanto medo que tivemos de voltar para trás. Claro que, ao chegar a casa, foi soba garantida!
Foto do Sr. da Paz, em Adrão, também tirada do Alto da Derrilheira, em 2014
Mas nesse dia, no Alto da Derrilheira, eu já sabia que Lisboa ficava muito para trás de muitas serras amarelas e o plano para alcançar Lisboa já estava forjado na minha cabeça, embora só se realizasse no dia 3 de Março do ano seguinte. Hoje tento repassar as imagens desse dia e sei que vou morrer antes, muito antes, de alguém voltar ao Alto da Derrilheira e ouvir a chiadeira dos carros de bois pela nossa Veiga abaixo.



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