Luiz Franqueira 29.05.20
Tenho saído à rua, para tratar da vida, quando necessário. Depois de meses confinado em casa e 3 ou 4 saídas ligeiras e urgentes à Farmácia, comer para o gato, ultimamente aproveitei a leva e fiz as saídas necessárias com a tal caminhada de kms na terça feira passada. Escusado será dizer que fiquei escanzelado! Caminhar com peito às balas feito e, por fim, andar de rastos aqui em casa a montar uma cadeira para a varanda, fiquei mesmo arrumado.
Mas, ontem fomos ao Hospital de Santa Maria, à Farmácia, buscar um medicamento que tem de ser levantado sempre lá. Costuma fechar às 19 mas agora fecha às 16. Viemos sem ele. Mas isso é o menos. Ver o Hospital de Santa Maria como o vi, só marcações de várias ordens, fitas coloridas, chãos marcados, uma espécie de hospital de campanha, em frente, meia dúzia de ambulâncias e alguns bombeiros, uma ou outra pessoa sentada onde podia. Algo me gritava: "tem sido o terror, Ventor"!
É tão bom continuarmos a ver as flores nos prados verdejantes
Aquele hospital onde eu já descrevi nos "corredores do desespero", mostrou-me ontem um semblante do terror. Um terror real que me gritou: «nem sabemos o que nos pode esperar, Ventor. A vós, e a mim, o próprio terror! Ninguém sabe como isto vai acabar, Ventor e até eu, o terror, me sinto aterrorizado"!
Fui caminhando de carro e, mesmo de carro notava como é belo viver desconfinado. Quando cheguei à minha rua arrumei o carro e fomos à Farmácia a pé. Verifiquei os cafés abertos e, claro, como previsível, ninguém mascarado. Comer, beber as velhas cervejolas e elas sabem tão bem em dias de calor! Mas, por aí, o terror caminhava escondido por entre as mesas, acenando-me e mostrando-me a parte pior do desconfinamento. O pensamento relaxado das pessoas que não sabem ler nem sabem ouvir ou nem querem! Para eles o terror acabou! Uns copos de cerveja fresquinha repõem tudo no seu lugar e enquanto ela escorre pela garganta abaixo a vida vai continuando no seu melhor.
Mas não é bem assim! Daqui do meu cantinho eu aconselho todos a terem medo e a senti-lo bem juntinho dos batimentos cardíacos. Não se fiem nas comodidades da vida e não se esqueçam que até já o medo tem medo. É fácil dizer que o pior já passou mas não passou! Se nos distrairmos, se não estivermos atentos, se abusarmos, não voltaremos a cantar a tal caçãozinha: «tudo está no seu lugá, graças a Deus» ....
Eu também sei verificar as amostragens e ponderar as estatísticas e costumo dizer como o outro: "raras vezes me engano" mas, desta vez, peço a Deus que me deixe enganar ou estamos tramados. Depois não venham dizer que acontece mais nas classes mais desfavorecidas enquanto há muita gente, por aí, a pensar que só acontece aos outros.

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