Luiz Franqueira 22.04.24
Nas minhas caminhadas ao lado dos filhos do sol, vou apreciando tudo. Aprecio o verde dos bosque, as cores das flores, as nuvens no céu esvoaçando a reboque dos ventos, as árvores altas e o temor de levar com uma pinha na cabeça, quando caminho debaixo dos pinheiros (ainda por cima em dias de ventania), como já me aconteceu, em tempos, na serra de Sintra, ... Talvez nem acreditem mas, a fotografar umas flores, uma pinha quase me estragou as flores, a minha cabeça e a máquina. Vi pinhas caírem à frente e ao lado do carro, quando rodava debaixo de pinheiros mas antes disso, tivemos a sorte de ver correr, atravessando a estrada, um saca-rabos. Se calhar, ele fugia da possibilidade de também levar com uma pinha na cabeça. Concluí, pelo menos, que sempre há saca-rabos na serra de Sintra. Já não é só o ... diz-se, diz-se, o .. ouvi dizer. Consegui desacelerar o carro para ele seguir em paz e segurança da sua vida.
O saca-rabos, magusto da Europa, Ásia e África
Na África, era estimado pelos egípcios por ser um devorador dos ovos dos crocodilos. Esta gravura de von Schreber, foi tirada da Wikipédia. Tal e qual como o rasteirinho que caminhava sobre o alcatrão da estrada, na serra de Sintra
Mas eu estava a falar de um charco, bem mais pequeno que a Lagoa Azul (o charco do saca-rabos). Foi de lá que ele fugiu atravessando a estrada.
Este outro charco de que falo, é um charco minúsculo, apenas um cantinho, fonte de água e fonte de vida. É neste pequeno charco que os meus amigos penudos se encontravam com o Ventor. Ali bebiam, ali se banhavam, ali se encontravam para as suas conversas e ali me davam uma lição de que, neste mundo, a água é para todos.
Um pombo bravo (Columba oenas), amigo que há muito tempo não via, junto com as rolas bravas, os pombos torcazes, os estorninhos e demais passarada
Era um charco pequeno, tão pequeno que não corriam o risco de morrer afogados mas era o charco do seu encanto. Já lá passei horas a ver eles beberem e banharem-se e, apesar de algum receio, pela minha presença, creio que eles já se tinham habituado. Ali vejo pintassilgos, verdilhões, chapins, pintarroxos, pardais, rolas bravas, rolas turcas, pombos torcazes, pombos bravos, lavandiscas (alvéolas), estorninhos, ... pardais, e sei lá quantos mais.
Pombo torcaz (Columba palumbus L.), a imponência dos pombos
Este pombo é lindo e é imponente; é o maior de todos os pombos. Já éramos amigos. Ele vem para uma das árvores junto de mim e espreitava para dentro do carro, se calhar para ver se era eu! Cantava para mim, a dois metros da minha cabeça e, só depois de muitas mariquices é que ia a banhos! Não sei como eles, daquele tamanhão, não se espetam contra os acúleos das acácias com mais de 3 cm de comprimento.
Rola-brava, rola-comum (Streptopelia turtur) uma maravilha dos meus penudos
Elas já me topavam, eu é que não sabia se eram as mesmas mas eram, pelo menos, um casal. Não tinham a técnica do pombo torcaz mas tinham outra. Elas caminhavam para o charco, sós ou acompanhadas, debicando aqui e ali mas, sempre com o olho em mim. Ou só ou as duas (talvez um casal), lá ganhavam confiança e iam ao charco. Depois, se estivessem muito molhadas, pousavam numa árvore junto de mim e enxugavam-se. Por fim até cantavam. Também me espreitavam da árvore mas mais altas que o pombo torcaz. Eram as minhas belezas desde os tempos que as observava nos bosques de Adrão.
Um estorninho albino (Sturnus unicolor). Ele pertence aos estorninhos pretos mas nasceu albino
Ele caminhava entre os amigos, bebia com eles e tomava banho com eles. Quando aparecia um grupo de estorninhos olhava sempre a ver se via aquela manchinha branca no meio do verde ou no charco acastanhado de águas louras. Ele só lhe faltava dar às asas e gritar: "estou aqui, Ventor! Fiz uma pausa para o banho mas tenho de ir à labuta arranjar comer para os meus filhotes". E ele lá ia rumo ao seu ninho com o bico cheio, atravessando por cima da auto-estrada até perde-lo de vista. Era um trabalhador o meu amigo Albino!
Era nas minhas caminhadas entre estes e outros filhos do sol que residia a mais bela das poesias - as lições que os meus amigos me davam, contando-me belas histórias da Natureza.
Agora, quase tudo acabou para mim porque as minhas caminhadas foram-se todas ou quase e também o charco acabou. Essa passarada têm muita água no rio Jamor mas não eram muito exigentes. O charco tinha, de longe, a sua preferência.





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